Pobreza menstrual é o termo utilizado para descrever a condição indigna, vivida por muitas pessoas durante o período menstrual. O problema varia de acordo com tradições, crenças culturais e religiosas, status educacional e sobretudo com a economia. O termo apresenta-se de maneira tímida em nosso vocabulário, ainda pouco conhecido, com tímida familiarização transmutando as pessoas que vivem nesta precária situação invisíveis.

Os fatores econômicos, sociais e políticos estão intrinsecamente ligados e são contribuintes para o agravamento do problema. No Brasil, o absorvente ainda não é considerado um produto de higiene básica, e, deste modo, lhe é cobrado um imposto próximo a 27,25% (1), tornando-o um produto caro e pouco acessível para as pessoas de baixa renda.

A higiene e os cuidados durante a menstruação são indispensáveis para meninas, adolescentes, mulheres e pessoas adultas. No entanto, a dificuldade de acesso aos produtos higiênicos, aos absorventes, à instalação sanitária, ao saneamento básico, a falta de lugares corretos para descarte de resíduos e até a falta de roupas íntimas negam dignidade para quem menstrua, fazendo da higiene menstrual um privilégio.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 2,2 bilhões de pessoas não têm serviços de água potável gerenciados de forma segura, 4,2 bilhões não têm serviços de esgotamento sanitário gerenciados de forma segura e 3 bilhões não possuem instalações básicas para a higienização das mãos. (2) 

Em média as pessoas que menstruam passam 2.535 dias, quase sete anos de sua vida sangrando, não havendo escolha sobre o assunto, é simplesmente algo biológico. Independentemente da sua situação financeira ou social, cabendo as pessoas a busca por alternativas, na tentativa de suprir suas necessidades básicas, assim, utilizam-se de jornais, papelões, miolo de pão, pedaços de pano, sacolas plásticas, folhas secas, areia, itens improvisados ​​para absorver ou coletar sangue menstrual, os métodos de gerenciamento são em sua maioria pouco higiênicos e inconvenientes.

A escassez de recursos, comentários preconceituosos, sexistas, transfóbicos e

machistas, além do sentimento de vergonha impedem que menines e adolescentes frequentem escolas durante o período de sangramento.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018, 737 mil adolescentes com idade entre 15 e 17 anos abandonaram a escola ou estavam em atraso escolar.(3) O problema se estende para as pessoas em idade adulta, que deixam de trabalhar durante os dias em que estão menstruadas. O uso improvisado do material para a coleta e absorção do sangue é responsável por infecções do trato urinário feminino, tornando-se uma questão de saúde pública.

A Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu que o direito das mulheres à higiene menstrual é uma questão de saúde pública mundial e mais do que isto faz parte dos direitos humanos. (4)

A democratização do uso dos absorventes é pauta mundial, uma questão de saúde pública, de saúde da mulher, sendo conquistada em alguns países, como na Escócia, prestes a se tornar o 1º país do mundo a disponibilizar gratuitamente produtos relacionados à menstruação (5) e uma luta constante em outras nações, até mesmo nas consideradas desenvolvidas. O Brasil está dando os primeiros passos nesse sentido, havendo um projeto de lei que prevê distribuição gratuita de absorventes para pessoas vulneráveis. Enquanto a democratização do cuidado higiênico no período menstrual não sair do papel, as pessoas que menstruam seguem vivendo indignamente, se virando como podem.

Muito provavelmente você leitora não conhecia o termo pobreza menstrual, o problema. Infelizmente as pessoas que passam por está situação são em sua maioria invisíveis, não sabemos da existência delas. Queremos que elas passem a ser vistas e cuidadas, é por isto que devemos falar sobre o assunto.



Você já pensou em não ter dinheiro para comprar um pacote de absorvente?

Já pensou em não ter água para poder se higienizar durante o período menstrual?



Elas eram invisíveis para você, não eram?

 


  1. TABELA DE PREÇOS E TRIBUTOS SOBRE PRODUTOS E SERVIÇOS ESSENCIAIS. 2020. Disponível em: http://www.receita.fazenda.gov.br/publico/EducacaoFiscal/PrimeiroSeminario/22CARGATRIBUTARIAPRODUTOSDECONSUMOPOPULAR.pdf. Acesso em: 01 maio 2020.

  2. OPAS Brasil. Sistemas frágeis e lacunas de financiamento comprometem água potável e saneamento nos países mais pobres do mundo. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_joomlabook&view=topic&id=337. Acesso em: 01 maio 2020.

  3. BRASIL. Agência IBGE. . Abandono escolar é oito vezes maior entre jovens de famílias mais pobres. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/25883-abandono-escolar-e-oito-vezes-maior-entre-jovens-de-familias-mais-pobres. Acesso em: 01 maio 2020.

  4. UNITED NATIONS HUMAN RIGHTS. Every woman’s right to water, sanitation and hygiene. Disponível em: https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/Everywomansrighttowatersanitationandhygiene.aspx. Acesso em: 01 maio 2020.

  5. CARTA CAPITAL (Brasil). Escócia será o primeiro país a distribuir absorventes menstruais gratuitamente. 2020. Https://www.cartacapital.com.br/mundo/escocia-sera-o-primeiro-pais-a-distribuir-absorventes-menstruais-gratuitamente/. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/escocia-sera-o-primeiro-pais-a-distribuir-absorventes-menstruais-gratuitamente/. Acesso em: 01 maio 2020.

 
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